segunda-feira, junho 04, 2007

Paixão certa

Não digas como me comportar diante dela… Dela que não me conhece, que nunca ouviu falar de mim, que ignora o dia em que irá encontrar-me. Que ignora em que dia serei dela…

Não me digas que palavras usar para me defender das humilhações impostas pela sua mão estendida, pela sua altura diante de mim, homem miúdo, encolhido, sumido, olhando o infinito invisível e pesado.

Sobretudo, não me dês conselhos: um dia precisarás deles pois serão os mesmos para ti. Também serás dela, como o Pedro, o Helder e a Rita. Ninguém escapa ao seu olhar sedutor e final, ao seu respirar junto à pele, à sua forma imprevisível de nos arrebatar! No dia em que a vires, terás sucumbido aos seus pés, julgando encontrar o paraíso entre as pernas de uma prostituta. Porque ela é prostituta, puta louca e sem preço que tudo faz por prazer, saltando de corpo em corpo, de vida moribunda em direcção a outra! (Todo o corpo é já vida moribunda, areia contada numa ampulheta opaca…)

Não digas nada. Ainda não. Podes ficar aqui, apenas com o que sou, sabendo que te vou deixar e partir com ela. Quando ela vier, serás abençoada por uma solidão temporária, até que (se) venha para ti também!

A Morte é uma prostituta bissexual, como convém a este negócio que envolve carnes.

12 comentários:

maria disse...

nunca tinha visto a morte assim.

Ana Paula disse...

A morte, paixão certa... vende-se por tão pouco e passeia-se de corpo em corpo como se não fosse nada com ela.
O teu texto faz-me pensar. :) É bom sinal!

Maria Muadié disse...

sinto o tempo veloz
tenho medo da morte
e da sorte.

un dress disse...

é um talho é ...

mas não tenho medo.

ou não tenho consciência do medo.

/que é o mesmo/


...

CN disse...

E tens tempo e vontade para tomar um copo?

Luis Eme disse...

Eu chamava-lhe anjo negro... porque nem sequer se preocupa com sexos ou nexos...

Menina_marota disse...

"Quando eu morrer...

Morre o filósofo e o poeta,
morre o homem da caneta.

Morre o jovem e o idoso,
morre o pensante perigoso.

Morre o músico vacilante,
morre o nobre viajante.

Morre o intrépido cavaleiro,
morre o tímido prisioneiro.

Morre o charmoso galã,
morre o menino da mamã.

Morre o monstro condenado,
morre o mestre iluminado.

Morre um corpo que figura
esta Alma que perdura!

Morte!

A metáfora suprema,
a mudança de cena.

A destruição da evidência,
a afirmação da existência.

A sensação de liberdade,
a desilusão da saudade.

A podridão da biologia,
o alimento da maioria.

A promoção do lamento,
a suspensão do sofrimento,

O elemento indiferente,
o momento convergente!

Por isso,
quando eu morrer...

cantem Bécaud!
Inundem-se com a canção que vos dou
cheios da vida que vos compete:"

"Quand Il est mort le poéte..."

(Rui Diniz)

Gosto de ler este poema...tal como gostei de ler o teu texto...

Quando eu morrer... serei embalada pelo mar... assim está escrito...

Bj ;))

Ida disse...

Adorei a última frase, tás no teu melhor. Mas parece que tens uma fixação por prostitutas, minha menina. Porque diabos a malfadada das gentes há de fazer por dinheiro? Acho q ela faz por prazer e por ofício, aliás, como todos nós, quer nos prostituamos oficialmente ou não. Ao fim e ao cabo, estamos todos no negócio das carnes, e nos prostituimos consciente ou inconscientemnte, nesse ou em outros negócios menos prazeirosos.

inominável disse...

fixaçao por prostitutas? nunca me tinha visto assim, mas podes ter mesmo razao :)

isabel victor disse...

Ora, nem mais !

APC disse...

Sabes que comecei a ler o texto julgando que te referias à paixão... Àquela master-ilusão que nos ganha, nos leva e nos deixa, que nos alimenta, nos engana e nos machuca; essa coisa de sentir a vida, e não apenas viver. Afinal era da Morte... Mas olha que dava no mesmo! ;-)

Um abraço.

isabel victor disse...

belíssimo texto !

bj*