terça-feira, fevereiro 26, 2008

Resposta (curta-metragem 9)

Limitou-se a manter as mãos mergulhadas na louça suja. Preferiu não responder e continuou de costas voltadas para o inesperado da pergunta.

"Porque não respondes?"

Aquela era a sequência óbvia do monólogo e, por isso, não o quis interromper. O silêncio era agora mais incómodo e quente. Talvez também mais esclarecedor e ruidoso… Tinha acabado de perceber que algumas perguntas não devem ser colocadas apenas porque não há resposta para elas ou porque variam tanto que, passados alguns minutos ou dias, passam a ser menos verdade (ou mais mentiras!). Era, em linha recta, o que se estava a passar com aquele monólogo de aspirações a diálogo…

"Não vais mesmo responder?"

Naquele momento lembrara-se do sonho que tivera nessa noite e como limpava ainda toda a casa do peixe degolado que continuava a nadar sobre o mosaico e as passadeiras de soalho. Era assustador como uma noite dos mortos-vivos. Pensou que nada explicaria aquilo e continuou a lavar a loiça, encharcando as mãos em restos de comida e envolvendo-as na fofa e fedorenta camada de espuma que se acumulava à superfície da água… Que lírico! Uma elegia ao seu gosto por todas as tarefas domésticas!

Pensava também que não podia de facto pronunciar-se validamente porque nem sequer tinha pensado nos motivos da questão! E não tinha ainda verificado e categorizado os aspectos positivos, negativos e assim-assim que conduziriam à resposta. Mas precisaria mesmo de compreender os motivos? Seria assim tão necessário ponderar todas as vantagens e inconvenientes daquela pessoa, voltar a julgá-la sobre os seus critérios pessoais e intransmissíveis, espreitar-lhe a alma e tentar adivinhar-lhe as desgraças, as imundícies, os torpores, as obsessões, as mágoas, os medos, as merdas, os restos de criança, os embriões do tirano, do sacana e do proxeneta?

"Sabes que as minhas respostas têm prazo de validade, não é? Esta tem o período limite de um iogurte: 'Sim! Hoje amo-te'."


Quanto tempo levam os peixes mortos a decompôr-se?
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3 comentários:

Claudia Sousa Dias disse...

Minha querida. não sei que dizer...

deixo-te um beijo.

CSD

MB disse...

Pois, tudo na vida tem um prazo de validade... até o amor eterno, que é eterno enquanto dura!

isabel victor disse...

"... as minhas respostas têm prazo de validade, não é? Esta tem o período limite de um iogurte: 'Sim! Hoje amo-te'."


(os yogurtes sem conservantes devem ser comidos na hora ! São tão bons ... )


Bj* :))